terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

NATÃ: AMIGO DO REI !

Motivado pelas meditações do Castelo Forte 2012 neste mês, andei folhando algumas páginas do Antigo Testamento e constatei que NATÃ foi, no verdadeiro sentido, um amigo do Rei. Sim, por que há um falso e pejorativo sentido para estas palavras. Certa pessoa entrou numa empresa “com todo o gás”. Mas logo no primeiro dia um colega “melou” o seu entusiasmo quando lhe disse: “Esquece, aqui só vai pra frente quem é amigo do rei.” Manuel Bandeira (Recife-BR, 1886-1968) já em seu poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, conta as vantagens e regalias que lá terá. E o motivo: “Lá sou amigo do rei”. Contudo há pessoas que já constataram e a assim propagam que “rei não tem amigos, só súditos e servos”. Creio, porém, que os reis também precisam de amigos, não para comprá-los com favores e benesses. Mas para presença e apoio e, quando necessário, repreensão e correção. Nisto se resume a verdadeira amizade.

Neste sentido sim, Natã foi amigo do rei Davi, verdadeiro “presente de Deus” (significado no nome Natã em Hebraico). Discípulo de Samuel, Natã, filho de Atai (1 Cr 2.36) foi um profeta que viveu durante o período do reinado de Davi e Salomão, em Israel (2 Cr 9.29). Recebeu a missão de cuidar de Davi após a morte de Samuel. E se torna o grande conselheiro e amigo do rei Davi durante o seu reinado, sempre ajudando o rei nos momentos mais difíceis. Assim, é usado por Deus tanto para repreender como para confortar, orientar e apoiar Davi.

Nas diversas intervenções em que Natã teve que se fazer presente na vida de Davi, ele não apontou de imediato os seus erros, nem se portou com atitude acusadora. Mas conduziu Davi a reconhecer seus desvios do caminho. Foi sempre levado, a refletir sobre suas atitudes, aguçando, deste modo, a sua consciência como homem e servo de Deus. Foi assim quando do desejo de Davi construir um templo. Natã aprova e depois intervém com a orientação de que esta seria a tarefa de um filho de Davi, como sucessor seu (2 Sm 17 e 1Cr 17). Também aconteceu isso quando Natã conta a história dos dois homens, um rico e outro pobre, fazendo Davi mesmo dar sua própria “sentença” a respeito de sua trama contra Urias, marido de Bate-seba (2 Sm 12). De forma semelhante, ao final da vida de Davi, Natã, juntamente com Bate-seba, intercede em favor de Salomão acerca da ascensão de Salomão ao trono, pretendida por Adonias, outro filho de Davi. Natã aguarda para agir somente depois de Bate-seba fazer a sua parte. Ele entrou na hora “h”, “se ajoelhou diante do rei e encostou o rosto no chão” e “confirmou” a história da mãe de Salomão. Tal “intervenção” de Natá leva Davi a cumprir sua promessa e fazer de Salomão seu sucessor (1 Rs 1). Natã, um “amigo do rei” no mais verdadeiro sentido da palavra.

No sentido popular, buscar ser amigo do rei, com “segundas intenções” fere a essência cristã. Mas ser amigo de coração e doação, de quem tem e quem não tem poder ou destaque social, isto sim é bíblico e desejável em nosso viver. Vislumbrar uma vida cristã sob esta ótica da amizade favorece o crescimento e o discipulado. Um viver sob a ótica desta amizade abre caminhos para a confiança e, por consequência, desenvolvimento pessoal e social, espiritual e educacional. Favorece o processo de ensino-aprendizagem de um discípulo. Mostra um ensinar-aprender pela via do protagonismo e para a autonomia. (Ilustração: Natã, à direita, avisando o Rei Davi. Por Matthias Scheits - Fonte: wikipedia)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

BARCO E TENDA

Trago (e talvez você também), de minha infância na igreja, a lembrança de quando cantávamos e gesticulávamos com nossos pequenos dedos e mãos e com toda aquela empolgação e fé deste modo: “Pedro, Tiago e João num barquinho. Pedro, Tiago e João num barquinho. Pedro, Tiago e João no barquinho no mar da Galiléia”. Esta canção é inspiração e referência ao texto de Lucas 5. 1-11, e a experiência no BARCO.

Há outra passagem bíblica onde estes três personagens do novo testamento, discípulos de Jesus, aparecem com o Mestre. Desta vez não num BARCO, mas numa TENDA. Marcos 9.2-9 me fez pensar que a vida cristã é feita de momentos na TENDA, mas igual e condicionalmente, da vivência no BARCO.

A TENDA é a representação da comunhão, oração, descanso, fortalecimento, “sombra e água fresca”, aprendizado, louvor, glorificação, consagração, adoração, discipulado, crescimento, aprendizado, estudo, descanso, liturgia...

O BARCO é lugar de movimento, vocação, ação, tribulação, missão, “suor e lágrimas”, trabalho, pesca, união, força, dedicação, provação, evangelização, serviço, diaconia...

A arte e a beleza da vida cristã estão na busca do equilíbrio entre estes dois momentos com Cristo: na TENDA e no BARCO.

A TENDA faz-nos suspirar com os três discípulos e dizer: “- Mestre, como é bom estarmos aqui!”(Marcos 9.5).

O BARCO nos faz bradar com Pedro e os outros dois discípulos e dizer: “- Mestre, nós trabalhamos a noite toda e não pescamos nada. Mas, já que o senhor está mandando jogar as redes, eu vou obedecer.”(Lucas 5.5).

Na TENDA acontece REVELAÇÃO!

No BARCO acontece MISSÃO!

São lugares e momentos distintos. O discipulado não acontece em BARCOS com TENDAS. Seria até bem criativo, confortável e prático. Mas, necessitamos de ambos... distintamente... E Deus nos oferece sua companhia nos dois... indistintamente...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

BONS AMIGOS


BONS AMIGOS, em tom de brincadeira, já “reclamaram” por ainda não terem “aparecido” no meu Blog... Então dedico esta a vocês, nossos BONS AMIGOS!

Na casa de um destes bons amigos estávamos a almoçar e num certo momento da refeição meu filho alcançou-me um copo com suco. Achei que era para eu prová-lo, mas não, era para eu ler o que estava escrito no copo... Lá estava a estampa a cima com o mesmo dizer. Fiquei contente e ao mesmo tempo orgulhoso pela percepção que ele tem das coisas e do momento que est(ou)amos vivendo.

“NOS ALTOS E BAIXOS DA VIDA” Por muitas vezes pessoas tem se achegado à secretaria das Comunidades onde trabalhei e, na sequência, ao meu gabinete pastoral e começado a “se justificar” por estarem ausentes das atividades comunitárias e cultos e atrasados com as contribuições... Busquei sempre ser acolhedor e inclusivo e minha frase tem sido mais ou menos esta: “- A vida é assim, cheia de altos e baixos! E tudo tem o seu tempo! A vida às vezes é como se estivéssemos numa montanha russa. Além dos altos e baixos... em alguns momentos ela nos deixa até de cabeça para baixo, mas nunca fora dos trilhos!” E se “é da vida” estes “altos e baixos”, então todos nós, em maior ou menor proporção, os vivemos. O mais importante é estarmos atentos a “como” os vivemos. E um grande diferencial é quando temos ao nosso lado ou na outra ponta da gangorra, BONS AMIGOS.

“BONS AMIGOS” Será que seria necessário o adjetivo “BONS” à frente de “AMIGOS”? Há quem defenda que amigos verdadeiros são sempre bons... e que não exista “maus amigos”... pois, se são maus, não são amigos. Preciso contrapor esta idéia e constatar que às vezes somos “maus amigos”. De uma ou de outra forma, na maioria delas involuntariamente, decepcionamos, magoamos, nos omitimos, mesmo sendo BONS AMIGOS. E quem sabe até haja também inimigos, que podemos adjetivá-los de bons e maus. Bons por que nos poupam de sofrimentos e perseguições ainda maiores e maus quando efetivamente tramam contra a gente. Na Bíblia encontramos menção a “boas cidades”(Dt 6.10), “boas terras”(Dt 8.12, Mc 4.8, Lc 8.8), “boa(s) palavra(s)”(Js 21.45, 23.14, 1 Rs 12.7, Pv 12.25, Hb 6.5); “bom caminho”(1 Rs 8.36, Jr 6.16); “boa inteligência”(Pv 13.15); “boa vontade”(Pv 14.9, 2 Co 8.12, 12.9, 12.15, Ef 6.7, 1 Pe 5.2); “bom nome”(Pv 22.1, Tg 2.17); “boas novas”(2 Rs 7.9, Pv 15.30, 25.25, Is 40.9, Na 1.15, Hb 4.2); “boa fama”(Ec 7.1, 2 Co 6.8, Fp 4.8); “boa(s) obra(s)”(Mt 5.16, At 9.36, 2 Co 9.8, Ef 2.10, Fp 1.6, 2 Ts 2.17, 1 Tm 5.25,Tt 1.6, 2.7, 3.8, 1 Pe 2.12); “boa(s) dádiva(s)”(Mt 7.11, Lc 11.13, Tg 1.17); “bons frutos”(Mt 7.17); “boas cousas”(Is 52.7, Jr 12.6, Mt 12.35,); “boa semente”(Mt 13.24 e 38, “bom tempo”(Mt 16.2); “boa ação”(Mt 26.10, 14.6); “bom mestre”(Mc 10.17, Lc 18.18); “bom tesouro”(Lc 6.45); “boa parte”(Lc 10.42); “bom vinho”(Jo 2.10); “bom pastor”(Jo 10.11); “boa reputação”(At 6.3); “bom testemunho”(At 16.2, 1 Tm 3.7, Hb 11.39); “bom ministro”(1 Tm 4.6); “bom combate”(1 Tm 6.12, 2 Tm 4.7); “bom soldado”(2 Tm 2.3); “boa consciência”(1 Pe 3.16), mas “BONS AMIGOS” não encontrei. Quem sabe seja mesmo redundante chamar os amigos de bons. Mas nunca é demais nos monitorarmos para não sermos “maus amigos”.

“SÃO SEMPRE PRESENTES DE DEUS” “Nunca diga nunca” diz o ditado. E melhor é também nunca dizer “SEMPRE”. Por que, por vezes, falhamos. Estes radicalismos de fidelidade valem e podem ser assumidos somente por Deus. De nossa parte são apenas desejos, votos, compromissos, desafios que, com fé e firmeza em Deus, até podemos cumpri-los, alcançá-los. Mas Deus NUNCA nos abandona. “A sua misericórdia/O seu amor dura para SEMPRE.” (Sl 100.5). Deus SEMPRE dá um jeito de nos presentear com “anjos sem asas” (como minha esposa muito bem gosta de definir AMIGOS). E se Ele nos presenteia com BONS AMIGOS, noutros momentos e circunstâncias, somos nós que Ele “empacota” e nos coloca nos braços, colo, ao lado ou na outra ponta da gangorra de alguém (ou de “alguéns”). Se “é da vida” os “altos e baixos”, “é da vida” também estarmos prontos e dispostos para nos colocar no outro lado da gangorra de alguém a qualquer momento, fazendo, como PRESENTES DE DEUS, o contraponto, o equilíbrio.

OBRIGADO, NOSSOS BONS AMIGOS, PELO DIFÍCIL, MAS, AO MESMO TEMPO, GOSTOSO BALANÇO QUE VOCÊS ESTAM VIVENDO COM A GENTE.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

JORNADA RIO 2013

Esta é a logo oficial lançada hoje como símbolo da Jornada Mundial da Juventude (Católica) que vai acontecer de 23 a 28 de julho de 2013 sob o lema bíblico: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações". Foi escolhida através de um concurso e o artista é um jovem de 25 anos do Rio. Ah! O Concurso para a letra no hino oficial teve o prazo prorrogado.
Este evento está se mostrando como uma caminhada-jornada bonita, participativa e promete ser também transformadora... E, inspiradora para nós evangélicos de confissão luterana que no Brasil temos como tema neste ano "Comunidade Jovem-Igreja Viva" e que rumamos para, a nível mundial, celebrar 500 anos de REFORMA. Vale a pena acompanhar o site http://www.rio2013.com/pt
Estou curioso para ver a dimensão ecumênica deste evento.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

APRENDER & ENSINAR


“Senhor, nos ensine a orar, como João ensinou os discípulos dele.”

Lucas 11.1

A Educação Contínua andava solta nos pré-tempos do Cristianismo. O Processo de ensino-aprendizagem da fé andava a galope. Com certeza os que procuravam seguir seu(s) Mestre(s) levavam a sério o que haviam herdado da prática dos Antigos... (“tua as inculcarás...”-Dt 6.7); dos Sábios... (“Ensina...”-Pv. 22.6); e agora de João (Batista) e de Jesus (Lc 11.1). Fica evidente que o Evangelista Lucas foi o que melhor reconheceu em Jesus o Ministério do Ensino (ao lado do Ministério da “ação”... do “fazer”... (At. 1.1.). E dentre as tantas coisas a desejar ensinar/aprender, um discípulo anônimo logo se interessou por aprender mais a respeito de um tema antigo e certamente conhecido: a ORAÇÃO. Ele observou que tanto o “mestre João” quanto o “mestre Jesus” oravam e pediu para “aprender a orar”. O discipulado era prática comum (até o Fariseus tinham os seus...) e implicava em ouvir e viver o que o mestre falava e praticava (Lc 3.3;7.22). E isso incluía batismo (Lc 3.7), ações concretas (Lc 3.10-11) além de orações e jejuns (Lc 5.33, 7.33).

A fidelidade dos discípulos de João Batista ao seu mestre iniciou no rio Jordão (Lc 3.3a) e se estendeu até Éfeso (At 19.1-7). Mas quanto à forma como João ensinou seus discípulos a orar não há registros nas Escrituras Bíblicas. Mas como Jesus Ensinou - em palavras e na prática - há diversos exemplos. E diante desta reflexão bíblica de Lucas 11.1 fiquei me perguntando: “- O que me foi ensinado e o que tenho aprendido sobre ORAÇÃO? O que estou ensinando e estão aprendendo de mim sobre o “ORA et LABORA”? E mais, o que tenho eu a aprender ainda mais sobre ORAR?

Num destes raros finais de tarde curitibanos com “Céu de brigadeiro” (como aprendi a chamar aqui em Curitiba quando o céu está azul e sem nuvens) recebemos a visita de nossa vizinha e sua filha. Estávamos tomando aquele tradicional chimarrão com pipoca. “- Eu não tenho o hábito de tomar chimarrão, mas a filha está aprendendo a tomar chimarrão com a vó!” desculpou-se nossa vizinha ao eu querer “ensaiar” de lhe encher uma cuia. E diante da frase da mãe, não hesitei na exclamação: “- Então espera aí que eu vou buscar uma coisa!” Voltei trazendo meu mini-conjunto de chaleira, cuia e bomba que guardo de lembrança de minha infância. “- Nesta cuia o tio já bebeu e a nossa filha e o nosso filho também, quando nós éramos pequenos como você!” disse de peito estufado e, como é do meu perfil, emocionado.

Esta vivência me fez refletir e avaliar meus processos de ensino-aprendizado – discipulado que exerço em casa, na vizinhança, no ministério pastoral. Será que consegui/estou conseguindo também ensinar a ORAR? Ao rever a foto observei a térmica de água quente com o símbolo do Grêmio estampado. Lembrei que neste sentido, ao entrar no quarto de meu filho, ao ver coberta quase toda uma das paredes com uma enorme bandeira do “tricolor dos pampas”, constato que o ensinei e passei algo, que apaixonadamente herdei de meu pai e segui.

Queira Deus que da mesma forma eu tenha, mesmo que limitadamente, lhe passado um pouco sobre ORAÇÃO e AÇÃO como parte da vida. E assim estejamos nós acrescentando algo na vida de nossos vizinhos/as, amigos/as, (e inimigos/as) e no meu caso também “ovelhas” e porque não, sob um certo olhar, “discípulos”, sobre “como orar” e tantos outros temas importantes do processo contínuo de educação cristã que Deus realiza em cada um.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Suíça aqui em casa

Como é diferente quando estudamos algo e quando vivenciamos algo. Quando a gente ouve falar de alguma coisa, eu, pelo menos, guardo e entendo um tanto das informações, mas quando a gente vive algum momento ele é muito mais marcante. Quando a gente sobre algum país a gente até aprende como as pessoas vivem, mas quando a gente convive com alguém deste país, mesmo que por algumas horas somente, a gente aprende muito, muito, muito mais.



Tivemos uma grata surpresa neste último final de semana. A Suíça literalmente entrou na nossa casa. Em julho de 2010, numa visita a uma comunidade da IECLB, havia conhecido uma estudante de teologia, suíça, intercambista na EST (Escola Superior de Teologia) de São Leopoldo, colega de um futuro colega... (deu pra entender né?!). Naquela vez quando nos despedimos ofereci nossa casa e a hospitalidade e amizade de nossa família se ela quisesse conhecer Curitiba. A “grata surpresa” aconteceu quando a Gabi escreveu na semana passada um rápido email se re-apresentando, lembrando de quando nos conhecemos. “-Aquela pra quem você emprestou um Dramim”, explicou ela (foi para ajudar na viagem de volta dela de ônibus de Santa Rosa para São Leopoldo, na expectativa de que não se repetisse os enjôos da ida). Gabi pergunta se era eu mesmo e informa que estava na Ilha do Mel (litoral paranaense) e que chegava 6ª feira em Curitiba para no sábado voar de volta para Porto Alegre. “-É eu mesmo.!” respondi. Passei nossos telefones e sugeri que ela se anunciasse quando estivesse chegando na capital do Paraná para a pegarmos. O “albergue” (quarto de nossa filha) e o “taxi” (nossa Variante 77) estaria à disposição.
Como chovia e a Gabi já tinha feito a viagem com a Jardineira (ônibus de turismo) quando desembarcou em Curitiba, com toda a paciência do mundo, entre uma cuia de chimarrão e outra xícara de café ela nos contava – em um bom português – sobre o seu país. E juntos fazíamos algumas comparações com os "brasils" que ela mesma já havia descoberto... distâncias, geografia, pessoas, igreja, estudos de teologia...
A Suíça, uma Confederação de 26 Cantões (relativo a Estados no BR) é um país que tem quatro línguas oficias. Ou seja, em 41 mil Km2 de área (menos que Rio Grande do Norte) quase 8 milhões de habitantes (RS tem mais de 10 milhões) se entendem falando alemão-suiço, francês, italiano e o romanche. A Gabi nos contou que voltará para a Suíça no final de janeiro para terminar seus estudos de teologia na Universidade de Berna, mas vai morar com a família em Crémines (Cantão de Berna). Num país historicamente equilibrado entre católicos e protestantes, Gabi integra a Igreja Reformada da Suíça e pretende ser pastora após a conclusão dos estudos. Mas para isso terá que ainda fazer Mestrado após a Graduação. Quando lhe perguntei sobre o que mais lhe chamou atenção entre o estudo de teologia de São Leopoldo e de Berna ela disse: “-Aqui é mais prático, lá é mais científico. Se bem que os intercambistas estrangeiros que vão pra lá, se vêem mal com as aulas de homilética (culto e pregação) que são dadas em alemão-suiço.” (pra ter uma idéia nem os alemães entendem bem o dialeto suíço se falado naturalmente). A Gabi até tentou nos falar uma frase na sua língua materna, mas preferimos aproveitar aquelas poucas horas falando português...
Na despedida demos à Gabi um pacote de Erva Mate de presente. Ela gostou de mais do chimarrão e disse que, a exemplo de algumas colegas, se tornou seu companheiro de escrivaninha nas horas de estudo. Ela diz que vai levar quatro conjuntos de bomba e cuia para deixar em quatro locais diferentes na Suíça. Em nosso livro de visitas ela escreveu: “Muito obrigada por tudo, e, se vocês estão um dia na Suíça, ligue!”
Obrigado a você Gabi, por nos ter trazido a Suiça aqui em casa.

sábado, 14 de janeiro de 2012

BENÇÃO

BENÇÃO
(Prédica que proferi em 1º/01/12-na Martin Luther- e vou proferir amanhã-na Cruz-Hauer - Seguindo meu ABC-homilético)


(Atualmente)
O tema da “Benção” é muito sugestivo e especial para estes primeiros domingos do Ano Novo. Um tema de certa forma “controverso” pela forma com que atualmente se vê em várias igrejas oferecendo uma “benção especial”(para cada dia), muitas vezes em troca de “donativos”(ofertas) – as vezes numericamente escalonadas – para a “missão” da igreja... a benção como um verdadeiro “negócio” com Deus.

(Biblicamente)
O texto bíblico que proponho para meditação e inspiração para estudo do tema é por de mais conhecido. Trata-se da “benção (a)arônica” pronunciada geralmente no final de cada culto ou celebração evangélica-luterana. (dias atrás ouvi o compartilhar de uma amiga/irmã que por anos orava toda noite esta benção no leito de morte da mãe...).
Proponho ler o texto em três vozes/tempos:
Números 6.22-23(vc) + vv.24-26(comunidade) + v.27(vc)
Lutero, desde os tempos da Reforma, indicou este texto (ao lado do Salmo 67.7ss – HPD 376) como texto de benção final do culto. Nestes escritos de 1523/6 Lutero explica e interpreta esta “BENÇÃO” de forma Trinitária:
v.24 = Ele vê destacada a ação CRIADORA do Pai
v.25 = Ele vê expressa a ação REDENTORA (a obra de Cristo)
v.26 = Ele vê apontada a ação do ESPÍRITO SANTO (concedendo PAZ eterna)
Esta é uma interpretação cristã muito bonita e legítima de Lutero. Que nos ajuda a entender, dar e receber esta “benção” melhor. Porém o texto em sua base hebraica original (monoteísta) tem muito mais a nos ensinar:
Após a saída ou libertação do Egito o povo inicia sua primeira peregrinação pelo deserto chegando ao MONTE SINAI. Neste lugar e nesta primeira parada, Deus realiza a dádiva da “TORÁ”: todas as leis fundamentais do povo de Israel. E um dos blocos de “acontecimento do Sinai” (que vai de Ex. 19 até Nn 10.11) é o conjunto de normas relativas à tenda, ao templo, ao culto bem como aos Sacerdotes.
Arão fora escolhido par oficiar na Tenda, os Cultos. Neste conjunto de Normas e regras práticas sobre procedimentos do Sacerdote (pastor!?) está a INVOCAÇÃO DA BENÇÃO como ato litúrgico importante na vida e fé do povo.

(Concretamente)
Mas afinal o que é a Benção? O que ela significa para nós hoje? E qual a forma correta de entende-la, dá-la, recebê-la?
Um colega destacou (no PL 36) a seguinte definição que ele rebuscou em um dicionário bíblico alemão:
“BENÇÃO É A AFIRMAÇÃO DA PLENITUDE DAS FORÇAS DIVINAS POR MEIO DE PALAVRAS (E GESTOS, acrescentaria eu) ABARCANDO UM EMPODERAMENTO ABRANGENTE RUMO À PLENITUDE DE VIDA.”
Na semana em que preparava este texto conversava com minha esposa sobre “BENÇÃO” e ela se lembrou de como a mãe dela ao se despedir dela, quando saia de casa por qualquer motivo que fosse, sempre dizia: “- VAI COM DEUS, MINHA FILHA!”. Minha esposa me testemunhou que aquilo soava, e ela assim o recebia, como uma ORAÇÃO DE BENÇÃO e que Deus ia mesmo com ela, protegida para as lidas da vida naquele dia.
Quando Lutero comentou este texto de Números 6 ele disse que:
“A FORÇA VIVIFICADORA DA BENÇÃO REFAZ AS ENERGIAS E CAPACITA AS PESSOAS PARA A RESISTÊNCIA, TENDO A PAZ DEFINITIVA COMO ELEMENTO LINEAR E SIGNIFICADOR DA CAMINHADA.”
Há um erro em só relacionar BENÇÃO com o ganho de bens materiais, boas notícias, bons “vencimentos” no final do mês. A benção que invoca a PAZ também acontece quando ela se dirige para dentro de situações no mundo, no dia a dia, em que as pessoas efetivamente NÃO vivem em PAZ, mas são atribuladas por guerras, conflitos e tensões de todo tipo.
Conheço uma pessoa “evangélica” que quando nos encontramos ela sempre, diante de alguma novidade boa, material ou não, ela exclama “Ôh glória!”, “Que benção!” O marido dela é falecido. Sofreu por dois “longos” anos com um câncer de pele que ao final espalhou metástases pelo pulmão. A esposa, ainda no leito de morte do marido, orava pela “benção da cura”. Minha esposa e eu agradecíamos pela “Benção da vida” e orávamos pela “benção da Paz” e da força para que se renovasse sempre nele assim como estava com ele até ali.
Nesta interpretação de Lutero, a BENÇÃO somente pode ser recebida como elemento de graça e dom; ninguém pode construir por si só as bases da benção. Contudo, a recepção graciosa da benção não isenta-nos da responsabilidade por sua manutenção e por sua ação.
A BENÇÃO é uma fala, uma alocução, mas em geral está conectada e acompanhada de um gesto: - imposição de mão; - levantar os braços; - um abraço; - um beijo. Ou seja, a benção tem um poder e uma função relacional, de troca de reciprocidade, de circularidade. Ou seja, a BENÇÃO não é uma ação unilateral. Talvez o melhor exemplo disso seja Abraão: ELE É ABENÇOADO POR DEUS E RECEBE UMA INCUMBÊNCIA: “SÊ TU UMA BENÇÃO” (Gn 12.2s + Gl 3.8s).
Ou seja, a BENÇÃO que recebemos deve ser passada a diante na forma com que vivemos com nossos semelhantes.
Um último aspecto que ainda gostaria de repartir com vocês sobre o tema da BENÇÃO é que, conforme o Antigo Testamento:
O DAR E RECEBER A BENÇÃO INCONDICIONAL DE DEUS DEPENDE UNICAMENTE DO AGIR SOBERANO DE DEUS. AGORA O MANTER ESTA BENÇÃO ESTÁ CONDICIONADA TAMBÉM PELO NOSSO AGIR COERENTE E CONDIZENTE COM ESTA BENÇÃO.
Quando minha esposa lembrou-se do que a mãe dela sempre dizia - “Vai com Deus” eu disse: “Que benção divina bonita, transmitida por Deus pela fala da mãe!” Mas daí eu disse, de nada adianta se a gente recebesse essa BENÇÃO dela antes de viajar, por exemplo, e a gente seguisse em viagem a 140 km por hora numa estrada onde o limite era 80 ou 100! Vocês me entendem?
Quero rogar sobre todos vocês a benção incondicional de Deus neste dia para que nosso viver neste novo ano seja condicionado por um agir cristão afinado com esta benção, este Deus. Amém!
(A imagem é um saleiro. Quando você serve o sal já "abençoa" o alimento)